As coisas são como a gente às faz; quem causa tem conseqüência; a vida, ou talvez quem sabe, o alivio da morte.
Uma vez, eu estava saindo do prédio de uma amiga na av. São Luis no centro de São Paulo. Avenida, esta, muito movimentada durante o dia e boa parte da noite, trabalhadores, donas de casa, desocupados, estrangeiros, pedintes, mães de santo, ciganos, policia, travestis, putas, a fina flor da alta sociedade paulistana, “os velhinhos sem saúde e viúvas sem porvir” (Chico Buarque), muita gente passa nessa rua, muita mesmo... Então, ao sair do prédio me deparo com uma cena no mínimo grotesca:
Um homem cerca de uns trinta e tantos anos, vinha andando entre as pessoas, cambaleante, olho para seu rosto, ao mesmo tempo que ele leva a mão, que manchada de vermelho segura um gorro vermelho, surrado, o rosto agora visível, pintado com o liquido rubro. Da sua testa uma bica do sangue marcava o caminho e chamava a atenção... E chamava a atenção... e me cham... Mas era só o que acontecia, ninguém... mas ninguém mesmo, inclusive eu, teve a coragem ou o bom senso de perguntar aquela figura, se ele precisava de alguma coisa, se estava doendo aquele corte, se o Corintians havia ganha o campeonato ou qualquer coisa parecida... O que? É fácil falar ninguém faz isso, ninguém faz aquilo?
Certo, certo... Mas eu disse logo ai em cima, INCLUSIVE EU, lembra, o Maximo que consegui fazer foi acompanhá-lo, há distancia... Quando vi que ele estava indo na direção do posto de saúde na rua Martins Fontes, achei que estava tudo bem, pensei: se ele esta indo na direção do posto, então esta tudo bem!... Tudo bem!... TUDO BEM uma ova isso sim!
Como tudo bem, se somos indiferentes aos absurdos que acontecem a um passo de nos?
Vejam vocês, meu filho, recém chegado do interior, o cu do mundo fica lá. Acredite! O! Cidadezinha pequena, sem perfectiva, vazia, pacata demais para uma juventude cheia de idéias vivas, sadias, que poderiam mudar o rumo de toda uma nação, de todo o mundo, de toda a humanidade... E quando ele chega aqui... Meu filho! As 14 hs de uma terca- feira ensolarada, ele é abordado por dois garotos quase da mesma idade...
- Me da o celu.
- O que?
- Me da a merda desse celular porra!
Reagiu...
- Não!
- Como é que é?
- Eu não vou dar!
Da-lhe porrada,
Duas da tarde,
Chute no peito,
Duas horas e quinze segundos,
Um soco na cara outro no estomago,
O sol brilha na rua movimentada,
- Ele não larga...
- Chuta o filho da puta...
Os garotos sumiram
Duas horas e quarenta e cinco segundos,
Meu filho sangrando no chão.
O celular em sua mão,
Algumas pessoas passam,
Olham,
Resmungam,
- “Esse mundo não tem jeito”.
Lentamente ele se levanta, o celular em sua forte mão,
Nada quebrado, joelho ralado.
NÃO FIZ NADA, NADA, pensava,
Cambaleava...
As dores, as dores...
Como ele,
Ninguém que estava a sua volta fez nada.
Ninguém faz nada, nada, nada.
Olha o Pais , olha as pessoas que andam pela cidade.
São carros, motos, ônibus, metro. Os aranha céu
E as bebedeiras nos botecos,
A mulher fácil na rua, o otário que fica pelado.
Nada ninguém faz nada
Os velhinhos nas ruas,
Ninguém faz nada!
As crianças que roubam e matam,
Ninguém faz nada!
Os trapos humanos largados nas vias,
Ninguém faz nada!
Políticos corruptos
Ninguém faz nada!
Bandido com frada de protetor
Ninguém faz nada!
Ninguém faz nada!
Ninguém faz nada!
A pergunta é, ate quando?
É isso ai!
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